O Brasil comprou a Espanha

Publicado originalmente em De Mattar por João Mattar

Em 1998 o Brasil se vendeu; hoje o Brasil comprou. Se você parte do princípio que a FIFA manipula os resultados de todas as suas competições, então fica fácil acreditar nisso. Em 1998, Cafu, Dunga, Rivado e Ronaldo se venderam; hoje, Iniesta, Casilas, Torres e Villa se venderam.

Desde que eu entendo de futebol, há apenas uma Copa em que se questiona seriamente um resultado: Argentina 6×0 Peru, na Copa de 1978. Quem assistiu ao jogo lembra que o Peru jogou de maneira estranha. Mas um detalhe importante: o Peru não estava disputando nada: já estava fora das finais. Se realmente se vendeu, não perdeu nada (a não ser é claro sua honra). A Argentinha precisava ganhar de mais de 3 gols de diferença para ir à final, porque o Brasil tinha vencido o Peru por 3×0. Mas para o Peru, o jogo não valia nada.

Em 1998, ao contrário, Brasil e França disputavam a final, e quem assistiu ao jogo viu que a França neutralizou os laterais brasileiros e ganhou o jogo com total justiça. A verdade é que não somos mais o melhor futebol do mundo há bastante tempo.

Hoje Espanha e Brasil também disputavam uma final, da Copa das Confederações, e a Espanha sonhava em completar seu ciclo de campeã da Eurocopa e do Mundo com este título; os próprios espanhóis disseram isso durante a semana, inclusive como seria um feito vencer o Brasil no Maracanã. O placar de 3×0 é estranho? Só para quem não acompanha futebol! O Barcelona, base da seleção da Espanha, tinha sido humilhado pelo Bayern no mês passado, pela Liga dos Campeões: 4×0 na Alemanha e 3×0 em casa, em pleno Camp Nu. Nesta Copa das Confederações, a Espanha jogou pior do que a Itália na semifinal e só ganhou nos pênaltis, enquanto o Brasil ganhou de 4×2 da Itália na fase de grupos. E a Espanha vinha de uma prorrogação desgastante e pênaltis na quinta, enquanto o Brasil tinha jogado na quarta, sem prorrogação. Mas independente disso tudo, quem assistiu ao jogo hoje (e entende um pouco de futebol) não percebeu nenhum indício de que o jogo tenha sido comprado. A Espanha teve mais posse de bola do que o Brasil. O primeiro gol do Brasil foi feito pelo Fred caído no chão. O pênalti perdido pela Espanha, que poderia ter apimentado o jogo, foi bem batido e pegou na trave (todo mundo que perde pênalti é vendido?). A Espanha levou perigo ao gol do Brasil no primeiro tempo, mas o Brasil jogou bem, marcou bem. No segundo tempo, eles pregaram e realmente se entregaram. Durante o jogo todo, o Júlio César fez várias defesas difíceis: se aquelas bolas tivessem entrado, o resultado do jogo teria sido outro.

Levando tudo isso em consideração, insinuar que o jogo de hoje foi comprado é um desrespeito com todos os profissionais envolvidos na partida, não apenas os jogadores. Os jornais da Espanha não insinuam isso: reconhecem que o Brasil foi melhor, mais objetivo. É uma acusação leviana de crime.

Quem comprou quem? Como? Por quanto? Os valores serão distribuídos por todos os jogadores? Pela comissão técnica? E se alguém não tivesse aceitado? Como neutralizar esse risco? Matando o jogador?

Um time de futebol não é eternamente imbatível. Uma hora ele perde, mas isso não quer dizer que se vendeu. Foi assim com o Brasil, foi assim com o Santos, foi assim com o Barcelona, foi assim com a Espanha. Quem acompanha futebol sabe que sempre foi assim.

Como disse o Carlos Rivera no face: “A vitória sobre a Espanha não pode apagar nossa ansiedade por um Brasil melhor, mais justo, menos incoerente e mais respeitoso com seu povo. Bóra Brasil – continuar com a pressão por mudanças.” Agora, protestos (legítimos), Globo e os problemas do país não nos dão o direito de sair acusando um montão de profissionais de terem se vendido ou comprado. Os protestos continuam, os problemas continuam, mas não é por isso que temos o direito de fazer insinuações de crimes sem qualquer fundamento. O Brasil ter vencido a Espanha na bola não desqualifica nenhuma dessas questões, não passa borracha em nenhuma delas.

E como disse a Rose Chiari, também no Face, “gostar de futebol e ser alienado não significam a mesma coisa, isso quem decide é você.”

Os espanhóis vêm aqui, fazem bagunça em hotel, festa com prostitutas e desfilam como se fossem imbatíveis. Todos os jornais espanhóis reconhecem a vitória do Brasil na final (no campo) e espanhóis chamam os brasileiros de macacos. E nós, só nós, alguns de nós, resolvemos dizer que tivemos que comprá-los para ganhar! Falta um pouco de confiança, né, e enxergar a teoria da conspiração em tudo atrapalha, né?

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