Bill Watterson: Conselho de um Cartunista

Postado originalmente em Papo de Homem por 

O autor de Calvin e Haroldo falando sobre carreira, riscos e liberdade.

Como não tinha em português e sei que muitos compartilham do mesmo gosto por Calvin e Haroldo, decidi traduzir o Zen Pencils com um trecho do discurso de Bill Watterson no Kenyon College, em 1990.

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Em 1990 Bill Watterson não era mais um cartunista qualquer, não fazia tirinhas ou charges por obrigação.

Para ele não fazia o menor sentido se manter em qualquer atividade sem perseguir um forte propósito.

Considero um exemplo corajoso.

Ele acredita que é importante gostar daquilo que você faz – ou ter uma forte noção do porque você faz o que faz – mais do que gostar dos frutos do seu trabalho. Mais do que gostar do dinheiro, da fama ou do prestígio oriundo da sua atividade, ele se envolvia com o desenho, com a criatividade, com o exercício de estimular sua curiosidade.

“É surpreendente o quão duro nós trabalhamos quando o trabalho é feito para nós mesmos. E com todo respeito a John Stuart Mill, talvez o utilitarismo seja superestimado. Se eu aprendi uma coisa sendo cartunista é o quanto se divertir é importante para a criatividade e felicidade.

Meu trabalho é essencialmente vir com 365 ideias por ano.

Se quiser descobrir o quanto você realmente é desinteressante, arranje um emprego no qual a qualidade e frequência dos seus pensamentos determinam o seu sustento.

Eu descobri que o único jeito de me manter escrevendo todos os dias, ano após ano, é deixar minha mente passear por novos territórios. Para isso, eu tive de cultivar um tipo de ludicidade mental.”

Custou a ele cinco anos trabalhando de graça, de madrugada, recebendo negativas por parte de inúmeros jornais e editoras, até que um primeiro sim viesse. Cinco anos.

“Por anos eu não tive nada além de cartas de rejeição e fui obrigado a aceitar um emprego de verdade.

Um emprego DE VERDADE é um emprego que você odeia.

Eu desenhava anúncios de carros e de supermercados no porão sem janelas de uma loja de conveniência. Eu odiei cada um dos 4,5 milhões de minutos que trabalhei lá.

Meus companheiros de prisão no trabalho se preocupavam basicamente em bater o ponto no exato segundo no qual eles poderiam ganhar mais 20 centavos sem fazer nada por isso… foi um grande choque ver quão vazia e robótica a vida pode ser quando você não se importa com o que está fazendo e a única razão pela qual está lá é para pagar as contas.”

E, no entanto, ele não hesitou em nunca liberar sua obra para quaisquer fins que acreditava poderem corromper o significado daquilo que estava fazendo.

Também não pestanejou em se aposentar, mesmo no auge do sucesso de seus personagens, quando percebeu que sua criatividade e interesse pelas histórias estava caindo.

“Vocês vão descobrir seus próprios problemas éticos em todas as partes das suas vidas, tanto pessoais quanto profissionais. Todos temos diferentes desejos e necessidades, mas se não descobrirmos o que queremos de nós mesmos e pelo que nós levantamos, vamos viver passivamente e não realizados.

Mais cedo ou mais tarde, seremos chamados a nos comprometermos com as coisas que nos importamos.

Nós nos definimos por nossas ações.

Com cada decisão, dizemos a nós mesmos e ao mundo quem nós somos. Pensem sobre o que vocês querem desse vida e reconheçam que há muitos tipos de sucesso.”

Talvez você esteja sentado, em uma mesa de escritório, olhando para a tela do seu computador e pensando em todas as coisas que está deixando de fazer, nos sacrifícios que tem de manter para se divertir um pouco em busca de alívio pela rotina que leva.

Talvez não, talvez você tenha desenvolvido bons métodos para se desligar sistematicamente, oito horas por dia, cinco dias por semana. Talvez você seja feliz buscando bonificações, cargos, promoções. É um direito seu perseguir sua aposta na vida.

Claro que há muitas faces, possibilidades e questões a serem levadas em consideração, mas até onde os limites desse texto permitem chegar, eu prefiro pensar como Bill Watterson.

Ter uma carreira invejável é uma coisa, ser uma pessoa feliz é outra.

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