O que é filosofia, afinal?

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Postado originalmente em Paulo Ghiraldelli – Filosofica como Crítica Cultural por Paulo Ghiraldelli

Tenho notado que há uma certa dificuldade do público atual em entender o que faz um filósofo. Isso não é de se estranhar. No mundo todo é assim. Creio que há mais imagens de anedotas, caricaturas e mal entendidos sobre a tarefa do filósofo do que há sobre qualquer outra atividade humana. O que não deveria mais ocorrer é vermos tais coisas distorcidas comandarem a cabeça de gente escolarizada, às vezes já até com uma faculdade nas costas.

Resolvi colocar um subtítulo neste meu blog/site, para ver se ajuda: “filosofia como crítica cultural”. Sim, pois há basicamente três tipos de trabalho em filosofia. Particularmente faço os três, mas não nos mesmos lugares.

Há a filosofia tipicamente acadêmica, em que os assuntos ditos tradicionais e “propriamente” filosóficos são tratados. Esse tipo de atividade é o que se revela na “pesquisa em filosofia”, a dita filosofia acadêmica. São trabalhos em história da filosofia ou em metafísica ou epistemologia ou filosofia da linguagem ou ética etc. Nesse caso, a grande divisão estilística é entre “continentais” e “analíticos”, os primeiros com abordagem mais histórico-social e os segundos com abordagens mais diretamente envolvidas com os problemas filosóficos quase como se eles pudessem ser tratados ao modo que se trata objetos da ciência.

Há a popularização da filosofia que, em parte, se confunde com a produção de material didático para a filosofia. Nesse caso, trata-se de divulgação e também de ensino de filosofia. Esse trabalho também é feito na academia, mas no sentido de introduzir os leigos e o jovens no assunto, ou de colaborar com os que estão tentando ler os clássicos e participar inicialmente de confrarias filosóficas.

Em terceiro lugar, há a filosofia como crítica cultural. Nesse caso, os objetos são variados. São as manifestações culturais em geral, mas, não raro, o que vem pela mídia em forma de notícias de vários campos: teatro, dança, política, cinema, dramas familiares, novelas, programas de TV, livros, etc., Nessa hora, o filósofo trabalha com a seguinte diretriz: “o jornalista, o historiador e o sociólogo podem escrever sobre tudo isso, mas não como eu, que vou abordar tais coisas a partir do vocabulário da filosofia e, portanto, trazer uma perspectiva a mais no conjunto das leituras de tais fenômenos, situações, objetos e desempenhos”. Não se trata aqui de filósofo que defende ideologias e doutrinas. Nada disso. O filósofo que faz crítica cultural é aquele que encontra dimensões filosóficas nas manifestações culturais, e as põe à tona. Cabe aqui uma desbanalização do banal. O que é analisado é o comum, o corriqueiro e o banal, mas há algo de não banal nisso que é delimitado, que vale ser ressaltado.

Veja a crítica à “Macaquinhos”, a performance teatral, posta aqui nesse blog em dois ou três artigos. Não quis falar ali de arte ou da qualidade da peça. Falei do “dentro” e do “fora”, ou seja, algo da metafísica que permeia nossa linguagem, algo da nossa visão moderna que criou o “interno” e o “externo”, que deu origem ao nosso romance moderno como gênero literário etc. Claro que, nesse caso, às vezes o leitor requisitado é um leitor mais inteligente que a média. Ele precisa notar que a pegada é diferente, que não se está abordando o banal pelo banal. Muitas vezes esse leitor, não sendo lá muito esperto, volta ao banal. Quer falar do banal. E então devemos retornar (quando vemos que vale a pena, ou seja, quando não se trata de lidar com um leitor já completamente estúpido) e recolocar o assunto. Disse mil vezes: “Macaquinhos” não está sendo analisada como peça teatral, não sou crítico de arte e blá blá blá. É difícil, mas é um trabalho que vale ser feito. Precisa ser feito.

Um filósofo atual tende a trabalhar nessas três instâncias, e até produz livros nas três instâncias. Mas tudo se perde se tal filósofo, ao fazer a terceira parte do serviço, se deixar envolver por posições política fechadas a priori, ou seja, ser de direita ou de esquerda. Aí, tudo se acaba. Pois a burrice mora na militância política e, quando um filósofo se deixa engolir por isso, há muito ele já está ficando burro. Não há texto bom se o escritor tem posições tomadas aprioristicamente sobre tudo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

PS: acho que com esse texto resolvo de uma vez a dúvida que paira sobre nossa atividade como filósofo na atualidade. Tomara!

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