RPG, pra que te quero?

Postagem publicada originalmente em Vila do RPG por Dmitri Gadelha

Em entrevista, ministro norueguês fala sobre o potencial sócio-interacionista do RPG

“LARPs podem mudar o mundo”, declarou recentemente Heikki Holmås, o novo ministro norueguês do Desenvolvimento Internacional, em uma entrevista ao site Imagonen. O político defende o RPG como instrumento capaz de diminuir as diferenças socio-culturais, criando uma atmosfera de coletividade e respeito mútuo entre os praticantes.

Jogador de RPG há mais de vinte anos, o ministro cita na entrevista a importância do aspecto interativo do nosso hobby, elogiando um projeto norueguês de LARP (live-action roleplaying, ou ação ao vivo, em português) realizado na Palestina, que ajuda a integrar jovens islâmicos e judeus.


O ministro Heikki Holmås com a clássica Red Box, a primeira edição do D&D.

Abaixo, você confere um resumo da entrevista, traduzida diretamente do texto original, no site Imagonen:

– LARPs podem mudar o mundo.

Pelo menos, de acordo com o novo ministro norueguês do Desenvolvimento Internacional, Heikki Holmås.

– Eu comecei a jogar com A Floresta da Destruição, de Ian Livingstone, quando eu tinha 15 anos, diz o ministro norueguês.

Da série de livros Fighting Fantasy, o salto para Dungeons & Dragons não demorou muito.

Junto com seu primo e um grupo jogadores que falavam inglês, o novo ministro do partido norueguês Sosialistik Venstreparti (“Esquerda Socialista”) começou jogando com a Red Box. Logo eles migraram para Advanced Dungeons & Dragons.

Holmås foi membro fundador da convenção de RPG RegnCon, que ele liderou entre 1992 e 1993, na cidade norueguesa de Bergen.

Em 1989, ele venceu o Campeonato Norueguês de D&D. O prêmio foi uma viagem para a Gencon, em  Milwaukee.

– Este foi um período de tempo em que várias convenções foram realizadas na Noruega, contando com milhares de participantes, como a ArCon, em Oslo, ele diz.

– Eu tinha me esquecido de parabenizá-lo pelo novo trabalho.

– Obrigado.

– Você subiu de nível?

– Hahaha. Sim, essa é uma boa maneira de colocar isso. Adquiri um nível, me tornei ministro. Você pode dizer isso. Hehe.

Holmås jogou regularmente com um grupo durante anos.

– Toda sexta à noite, ele diz.

– As duas campanhas mais longas longas duraram vários anos. Eu joguei com um monge e um cavaleiro.

– Em outra campanha eu tive uma divertida reviralvolta jogando com um homem-rato, ou seja, um metamorfo. Eu joguei até a época em que me tornei membro do Parlamento.

– Qual é o seu alinhamento? Você quer ser Caótico e Bom, mas você realmente é…?

– Hahaha. Eu acho que sou Neutro e Bom. Acho que sim. Mas cada pessoa desvia de seu alinhamento ao longo do tempo.

Holmås também participou de vários LARPs.

– Uma vez eu joguei com um eunuco em um harém. ele tinha sido capturado quando era criança e desesperadamente tentava escapar de sua prisão. Ele também desejava, como eu deveria expressar, readquirir sua virilidade através do uso de magia.

O ministro também participou do LARP histórico 1942, situado em um vilarejo na região Oeste da Noruega, durante a Segunda Guerra Mundial.

– Foi grandioso. Foi insano… Eu joguei com um membro do Partido Rural que tinha passado para o Partido Nacional Socialista da Noruega. Ele era um carpinteiro e colaborador, construindo uma aeroporto para o alemães, Holmås recorda.

Ele ficou muito impressionado com o esforço dos organizadores.

– Foi uma encenação incrível de 1942.  Tivemos pessoas vestidas como soldados alemães, dirigindo por aí em veículos anfíbios. Foi totalmente… foi um LARP incrível. Eu nunca antes ou depois senti uma sensação de total isolamento na sociedade. O isolamento e o desespero que te prende quando você percebe que seus mestres alemães não te davam a mínima.

O ministro também vê um potencial político nos jogos de interpretação.

– RPGs podem ser extremamente relevantes em colocar as pessoas em situações que elas não estão familiarizadas. Save the Children tem seus jogos de refugiados. Tenho amigos em Bergen, que já conduzem RPGs sobre direitos humanos. Mas você tem que ser profissional. Você cria emoções reais quando você joga RPG, emoções reais que se internalizam, ele diz.

– Esse é o tipo de aspecto um pouco assustador dos jogos de interpretação que tem de ser considerados. Ao mesmo tempo, é o que torna possível para os RPGs mudarem o mundo. LARP pode mudar o mundo, porque permite que as pessoas entendam que os seres humanos sob pressão podem agir de maneira diferente do que na vida normal, quando você está seguro.

O ministro do Desenvolvimento tomou nota de um projeto norueguês de LARP na Palestina, que será realizado ainda este ano.

– Eu não conheço todos os detalhes, mas não há dúvida de que você pode colocar israelenses a par da situação dos palestinos e vice-versa, de uma maneira que promova a compreensão e construa pontes. Essas coisas são um aspecto importante dos jogos de interpretação que torna possível usá-los politicamente para criar uma mudança.

– Não é coincidência que RPGs são usados nas organizações. Para desenvolver as organizações e para que as pessoas se tornem mais íntimas e seguras umas com as outras. Você baixa a guarda e externaliza certas partes de si mesmo que podem não estar tão presentes em sua vida normal. Ao mesmo tempo, você está sempre parcialmente em si mesmo quando você joga. Você nunca está cem por cento dentro ou cem por cento fora de seu personagem.

– Eu também participei de LARPs onde colocamos rédeas, usando as regras de “corte” e “intervalo”. Era absolutamente necessário e justo. Esses LARPs desenvolveram a possibilidade de fazer isso com um grau de segurança que é essencial, Holmås diz.

Fazia quatro dias desde que ele se tornou ministro quando ele recebeu o Imagonem por meia hora em seu escritório.

– Eu comecei a jogar RPG muito antes de me tornar um político ativo, ele diz.

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Essa é uma versão resumida da entrevista. O conteúdo completo da conversa, em norueguês, pode ser lido AQUI.

Bem, meus amigos, tomara que mais figuras da política mundo afora percebam que nosso hobby tem este potencial. Quem sabe, diante da cena brasileira, não apareça alguém que perceba isso por aqui também – não custa nada sonhar, hehehe… Afinal, somos um país onde a democracia racial não passa de um mito e nossa miscigenação não foi suficiente para apagar as diferenças étnico-sociais que ainda se mostram presentes no cotidiano brasileiro.

 

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